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Opinião

Por jornadas íngremes, viandante leve ele vai

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (**)

FARDADA BELAQDali a alguns dias, anos talvez, as coisas da vida começariam a mudar de figura. Já não tardaria, e o ocaso da idade anterior apareceria no vão da porta do destino. Anotado em boa tinta estava que filho de pobre não tem infância. Nasce menino, ou menina e, em pouco tempo, já está adulto por força das circunstâncias de um cotidiano atribulado em que a busca interessante é muito mais por pão e bem menos por circo. Mas circo é circo.

Já rapazola, aí pelas doze voltas ao redor do sol, compreendera que a vida não é tão difícil de ser tocada avante, se seguisse algumas pistas deixadas, principalmente, pela avó ranzinza.

Para o bem da verdade, a maior de todas as descobertas foi quando, na escola, muitos garotos e garotas conversavam entre si, menos ele. Logo, logo, foi chamado de lerdo, ao que, desconcertantemente, veio a resposta em alto nível:

- Sou tranquilo. Não, lerdo. – E ficou sem conversar fiado por alguns degraus da vida que amadurecia a olhos vistos.

Foi por aqueles dias que a verdadeira história do menino pacato começou a ser esculpida. A paz interior lhe permitia atenção dobrada em tudo o que diziam, muito especialmente na escola. Nada lhe passava despercebido. Mesmo alguns detalhes do que era tratado pelos professores não lhe escapavam. Ademais, aprendeu, ainda, o caminho da biblioteca, recinto frequentado por anos a fio, até que os livros mais interessantes foram todos lidos. Talvez cem.

O resultado de tudo isso foi que, não mais tardou e o menino lerdo passou a usar e abusar de uma memória fotográfica adquirida e exercitada nos diálogos com os escritores mortos que lhe povoavam a mente. Veio, em seguida, uma professora magra e bela e angelical nos seus óculos miúdos que a ele ensinou os rudimentos da escrita. O moleque calmo aprendeu. Isto significava já meio caminho andado.

Alguns anos depois, o menino sossegado já tinha luz própria e, através de concurso, passou a ter os privilégios federais, o que findou por arruinar as suas pretensões literárias. Só podia escrever ofícios e memorandos. Só depois, muito tempo mais tarde, foi que ele se soltou dessas amarras e escreveu crônica diversa e poesia largada de alguma qualidade, no dizer dos amigos da cidade princesa.

Todavia, apesar da vida calma que levava, como os outros moleques da sua idade, também passou a perseguir com bastante avidez os finais de semana.

- Ah, mais essa sexta-feira que nunca chega!

A fama rasa de garoto bom nos estudos não passou dos limites da rua das castanholas, ou, talvez, um pouco mais.Porém, em compensação, a facilidade em arranjar amigos logo rendeu frutos e, ainda, uns parceiros cheios de firulas e traquejos.

Foi por essa época fantástica que, enfim, lhe apareceu o primeiro boteco e a primeira dose de aguardente:

            Cachaça fruta do engenho

            Feita do pau de capucho

            Tu bate comigo no chão

            E eu bato contigo no bucho.

Naqueles dias de Deus, reinava na cidade princesa um homem bastante gentil que dominava um boteco onde apenas era vendida a famigerada três fazendas, afora alguma cerveja rala que era comprada, a preço alto, pelos que tinham soldo para tal. Bom mesmo é que, na frente do estabelecimento, a amável esposa do empresário vendia um tacacá supimpa. Ruim mesmo era para o fígado que ringia porque a sopa apimentada dos paraenses servia de tira gosto para as goladas superiores da água que pássaro não bebe. Isto, aos sábados e longe das vistas do pai, um estivador de fino trato, porém linha dura.

Por lá, havia um bom amigo de infância que tinha nome de macaco, apesar de ser louro. Juntos, nós pagamos muitos micos, como as paixões que pendiam sempre por moças inatingíveis para moleques sacanas como eu e ele.

Um dia, então, em barco a motor do pai padeiro, fomos passear na fazenda de propriedade deles. Não havia bebida, de forma alguma. Todavia, logo depois da largada do porto dos estivadores, um amigo do futebol pediu carona e embarcou portando um litro do conhaque cinco estrelas. Uma grande porcaria. Um velho amigo viu a presepada e, em seguida, foi à casa do estivador a contar-lhe o que observara.

É claro que o pai ficou possesso. Tomar conhaque aos dezesseis anos era prejudicial demais para quem queria dar-se bem com as matemáticas.

Chegados à colônia, cumpriram algumas obrigações, como dar alimento aos animais domésticos. Em seguida, fizeram ovos fritos e foram caçar debaladeira, onde mataram pássaros e, depois, os devoraram misturados ao arroz e à farinha. Em seguida, colocaram arreios em dois cavalos e foram passear na cidade que ficava a cerca de quarenta minutos em lombo de montarias velozes. À tardinha voltaram, embarcaram e fizeram a viagem de volta pelo rio.

O menino tranquilo não levantara nenhuma suspeita. Nada lhe perturbava. Mas, ao chegar à casa paterna, encontrou o pai estivador furibundo que só não lhe aplicou surra memorável porque a mãe achara por bem cheirar-lhe a boca em busca de vestígios de álcool, o que não foi constatado. Mesmo assim, foi proibido de ir dançar na boate do cabôco, exatamente num sábado de verão.

Pior de tudo foi ter marcado encontro com uma namorada que nele nunca mais acreditou:

- Como é que eu, mais velha, vou namorar um cara que ainda fica de castigo e apanha do pai?  - Foram estas exatamente as palavras dabruxa fantástica que lhe deixou o coração enfeitiçado por alguns longos meses.

A boate abria às sextas-feiras, mas lá pouca gente ia, talvez, por uma questão cultural de uma comunidade onde a maioria das pessoas trabalhava aos sábados. Mas lá estava o moleque mais tranquilo que nunca.

Corria mais ou menos o ano depois da copa do mundo de 74. Passou a ganhar algum dinheiro que era repartido ao meio entre os gastos pessoais e os domésticos, posto ser filho de pobres. O trabalho como ajudante na construção civil era uma necessidade da família e uma exigência do pai. Lá estava o moleque pacato pela manhã e à tarde. À noite, fazia o curso pedagógico no colégio das freiras. Sem maiores problemas e sempre com alguma proeminência um tanto parda, ou morena, ou mulata, mas cheia de vida.

Foi por essa era que lhe chamou a trabalhar o padre mecânico no seu juizado de paz... E a grana melhorou. Agora, já dava para a compra das calças boca de sino e dos sapatos cavalo de aço, além de outros luxos mínimos. Melhor ainda é que lhe sobrava algo em torno de 50 cruzeiros com os quais já conseguia tomar algumas cervejas às sextas e aos sábados, agora, em companhia de meninos de boa safra, filhos de médicos, bancários, coletores, vereadores, além de alguns próximos da coorte que naquele tempo ditava as regras no principado...

Mas aí já são outros quinhentos...

Certo é que a vida continuou melhorando e o barco singrando os mares interiores, de vento em popa, com as graças do bom Deus de Isaac, Davi e Abraão.

__________

*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. >

Por que sou Flamengo até morrer...

Por Edinei Muniz (**) 

E MunizDe regra, a opção e a definição da simpatia do sujeito por esse ou aquele clube de futebol ocorre, motivado, ou por fatos históricos envolvendo o clube em questão, como sequência de grandes conquistas, ou por influência de familiares e/ou pessoas próximas, normalmente pessoas queridas. 

No meu caso, foram as duas coisas. E muitas outras coisas, que guardo com carinho no lugar reservado às memórias mais alegres da minha existência. 

Meu batismo de paixão pelo Mengão se deu entre os anos de 1980 e 1981. Contou com a participação de Zico, melhor jogador de futebol que vi jogar, as vitórias majestosas do Flamengo no período e, o mais importante, a forte influência dos atletas, equipe técnica , dirigentes e torcedores do América Futebol Clube, o time de futebol mais tradicional de Xapuri de todos os tempos. 

Naquela época, nem todo mundo tinha aparelho de TV em casa e o pessoal das redondezas normalmente se aglomerava na sala da minha queridíssima Dona Percília, mãe do Eden Barros, hoje Policial Federal, ex-craque do América, e que só não foi parar em clube grande pq teve a infelicidade de uma contusão no joelho. Mãe também  do Zeca, flamenguista fanático  (precisava ser medicado nos jogos), do Toreba, do Zil (meu padrinho), e mãezona de todos da rua. 

Dona Percília foi quem me iniciou no mundo do trabalho. Vendi refresco de saquinho pra ela durante alguns anos. A Dona Percilia, pessoa adorável, de um senso de humor incrivelmente agradável, recebia todo mundo como se fosse de casa. E só reclamava das conversas paralelas durante a novela das sete.

A sala da Dona Percília era uma espécie de reduto aconchegante dos sem TVs e as programações mais disputadas eram o jornal Nacional e a novela das sete, que, naquela época, chegavam nos ônibus da antiga Viação Lameira, de nome bem sugestivo para a realidade da BR-317 e seus infindáveis atoleiros.

A cidade ficava naquela aflição à espera da fita com a novela e o Jornal Nacional, que seriam retransmitidos tão logo o ônibus chegasse da aventura diária na BR-317, já que não havia transmissão direta naquela época. 

Quando o ônibus atolava, o jeito era se contentar com os episódios repetidos do Daniel Bonie e do Rim Tim Tim, que de tão conhecidos, todos já sabiam de cor e salteado a fala dos personagens. 

A vantagem, quando o ônibus atolava, era que no dia seguinte assistíamos dois capítulos da novela. E era aquela festa.

A sala de exibição televisiva pública da casa da Dona Percília (quase uma segunda mãe pra mim) era disputada. 

Quem quisesse uma boa acomodação no sofá que chegasse cedo e tinha que tirar as sandálias e fazer silêncio. 

Conversas só eram permitidas durante os comerciais. Ninguém tinha cadeira reservada. A regra era simples: foi ao ar perdeu o lugar. Os lugares na janela também eram concorridos. Todo mundo se articulava como podia pra desfrutar da imagem em preto e branco da moderníssima Telefunken da cativante Dona Percília, amiga de todos, queridíssima.

Pois foi na frente da Telefunken da Dona Percília, cercado pelo fanatismo gostoso da galera do América Futebol Clube, quase todos flamenguistas, que me encantei com os dribles mágicos e os golaços de Zico, para mim, o melhor jogador de futebol que já vi jogar. 

Meu coração, claro, já era flamenguista e começaria a bater por ele em qualquer outro tempo e lugar da história, mas Deus, caprichosamente, e para a minha felicidade maior, quis que fosse ali, naquele pedaço da Rua Coronel Brandão, naquele que era o território de honra da Nação Rubro Negra em solo xapuriense e reduto do América, o mais querido e mais tradicional clube de futebol da cidade.

Tenho ou não tenho motivos de sobra para ser Flamengo até morrer? 

Saudades! Gostosa saudade.

(**) Edinei Muniz é advogado

Estágio avançado em Vila de Chaminés

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (**)

Bela5Observado, ao longe, enquanto uma espécie de gato de botas fora de época, ele chegou a pensar que os acontecimentos mais recentes pareciam aquele momento em que uma empreitada tem continuidade sem que o seu início tenha sido dado por quem viveu a experiência desde o princípio. Mas a vida é assim. O nosso guia turístico é de Altíssimo nível, o roteiro está criteriosamente detalhado e cabe-nos, então, aproveitar a viagem que, a depender apenas do próprio passageiro, deverá ser uma maravilha. Mas não se embriague tanto.Abestalhamentosnão são permitidos. Também não se finja de morto. Beba apenas o suficiente para umas boas gargalhadas. Olhe através da janela e veja como as providências foram tomadas de forma a garantir o seu bem-estar por esta vida afora.

Até então, vivera desde sempre em uma cidadezinha interiorana de costumes bem simples, às vezes. O grande sonho de todos do lugar era, um dia, quem sabe, ir morar na capital da província, com o fito de não apenas ter filhos gordos, mas em busca de uma formação em níveis superiores.

Com a ajuda dos pais e de um irmão, enfim, ele conseguiu e todos, juntos, fizeram a tão sonhada mudança. O futuro da família estava em jogo, e não era jogo de peteca.

A chegada ao paraíso dos sonhos mais reais aconteceu num desses dias cinzentos e nada festivos imediatamente após o carnaval. Um ônibus em estado deplorável. Uma viagem escorregadia. Uma estação de passageiros tosca. Um bairro bastante simpático. Pessoas na calçada. Moçoilas bem interessantes. A vivenda desajeitada.  Um novo e diferente mundinho. Descortinava-se, desta forma, o palco das experiências mais bem sucedidas. A grande festa estava apenas começando.

Nascera um observador atento a todos os ruídos. Nada, no entanto, causava nele assombro maior. Tudo era novidade. Os costumes da maioria não faziam constar grande amor pela escola, e muito menos qualquer obrigação para com as tarefas escolares, por exemplo. Pouquíssimos sabiam o que significava fazer um curso superior. E tudo era devidamente tomado nota pelo observador das experiências vitais.

Os botecos da vila não tinham nenhum luxo, mas lá havia muito aconchego, boa conversa, som de clarinete e batuque do bom. A cerveja era anotada em bom papel almaço por uma tia muito querida, dona do estabelecimento congênere. Mãos talentosas, dela, preparavam acepipes maravilhosos feitos a partir da carne bife com bastante cebola.

Bem no estilovamos ao que interessa,os finais de semana eram algo entre a inocência e o pecado. Uma gostosa loucura, intensa, feito calor, se alastrava por quase todos os lares, principalmente, depois que foi erguido um barracão em homenagem ao samba. A bebida era farta, como também eram fartas as taiscigarrilhas do demônio.Uma rapaziada numerosa se aprazia com asviagense os odores promovidos pela porra damarijuana.Sim, também algumas moças faziam usufruto dessa coisa maluca e mal cheirosa. E, como na letra da música do Chico, todos por ali estavam apenas esperando o carnaval chegar.

O nossosherlock holmesmatuto das terras seringueiras observava e, um dia, experimentou engolir a fumaça, mas detestou, principalmente, porque as chaminés humanas roubavam o aroma dos bons perfumes comprados a preços exorbitantes para as saídas diurnas e noturnas.

Lá estava o grupo amoitado na fazenda rente à vila. Havia um mestre, um contra mestre, um prático, um marujo, um vigia, este, grande jogador de sinuca, e o moço observador, que era estreante naquela pendenga às escusas da segurança nacional.

Estreou pessimamente e foi cortado da comandita por absoluta falta de competência na arte de fumar maconha. Ele não aprendera a puxar a porcaria da fumaça e, depois, não conseguia andar direito devido a uma grande vontade de dar cambalhotas no meio da rua de moradores e viventes que hoje tanto o admiram por um bocado de boas qualidades.

O primeiro Carnaval foi algo meio doido mesmo. De repente, no sábado, ainda cedo da tarde, ele já estava a ingerir, com força, uma talporradinha.Um calor dos infernos. A mocidade carnavalesca colocava uma dose de vodca em um copo grande, ao que era sobreposta soda limonada. Rapidamente, com uma pancadinha com o vaso na coxa, a mistura espumava abundantemente e a bebida era jogada goela adentro. Os efeitos eram estupendos, inebriantes, malucos mesmo... Dos cacetes.

E o numeroso cordão de foliões saía pela rua afora dando vivas à felicidade relativa do Carnaval. O anotador seguia no meio, bêbado, é claro. O destino era a praça central da cidade, onde muita música e desfiles aguardavam a mocidade de então. Uma beleza.

No meio do cordão de carnavalescos, pois, um cordão  -  de ouro  -  foi arrastado do pescoço de alguém. E foi uma gritaria no meio do povaréu. A autora da ação se evadiu da festa e dela as notícias só vieram na quarta de cinzas. Vendera a joia e ainda estava muito doida tomando banho num riacho das adjacências.

Quando ele, enfim, saiu da vila, estava rumo a um curso de altíssimo nível em escola superior de renome nacional. Fez um outro ainda mais elevado, o ápice.

Da pequena cidade de origem, trouxe régua e compasso, como disse o Gil. Mas foi emvila de chaminésque ele aprendeu a desenhar, a festejar, a namorar, a ser cavalheiro feliz e a voar muito alto... E nunca mais ninguém dele teve notícia.

Tudo foi, realmente, um grande e necessário estágio.

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(**) Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. -

Por que nem todo poder emana do povo?

 Por Edinei Muniz (**)

E MunizMuitos reclamam da inércia popular diante do caos e até chegam a culpar o povo por não reagir. 

A justificativa para tal postura, talvez seja fácil ou impossível, já que a demonstração da falência do sistema político está se dando de modo abrupto, e com elevada carga de choques e contradições, muito mais pela insistência decorrente do protagonismo isolado de alguns do que por uma construção paulatina envolvendo reação popular e sequência de fatos decorrentes da pressão das massas. 

Tal choque, a evidenciar vícios comuns a atingir montantes elevados das representações políticas, deixou o povo muito mais pensativo do que incitado a reagir nas ruas de modo decisivo. Fato.

Até final de 2014, havia uma aparência de funcionalidade mínima desse mesmo sistema, hoje esgotado e sem rumo, e o povo parece querer, perigosamente, que o mesmo seja depurado pelos próprios vícios para só depois intervir.

É simples: sem acenos razoáveis de resolutibilidade pelas vias que ainda restam do sistema, o povo parece querer apostar mesmo no calendário eleitoral, claro, sem retirar os olhos da crise no sistema, que, infelizmente, quanto mais cresce, menos garante a visibilidade e a viabilidade do novo e hoje funciona como máquina de aniquilação do presente e também do futuro.

Trocando em miúdos, o povo, em razão da guerrinha de sujos pela salvação a qualquer custo, vive um constrangimento inevitável que pode acabar retirando alguns espertos da merecida vala comum dos iguais. 

Tristemente, isso também é fato: corremos o risco de assistirmos a necessária depuração ser substituída por saídas salvacionistas e alienígenas como a que foi recentemente, e vergonhosamente, protagonizada pelo TSE.

Estamos tentando conduzir o barco até a margem (2018) usando "durepoxi" para tentar tapar o rombo no casco e impedir o naufrágio antes de chegarmos à praia, mas esquecemos que já caminhamos na praia, inocentemente, rumo à  tragédia da falta de opções quando mais precisamos dela.

Edinei Muniz é advogado

Um amor de crianças, às vezes

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (**)

CrianCaInfância feliz. Havia uma avó matriarca ranzinza, mas com o coração eternamente em festejo, apesar da energia usada com um cinto na mão, ou com uma corda mesmo, sempre que necessário, ou todos os dias, para conter os ímpetos da rapaziada. A saúde plena de todas as crianças as fazia alegres, saltitantes, desassossegadas e arteiras até, à exceção de um dos meninos. Este, talvez do signo da coruja, falava o necessário, mas prestava atenção aos detalhes mínimos da forma de agir das pessoas e arregalava os olhos admirado com as nuances dos acontecimentos domésticos ou paroquianos. Seguia na calma. Só na maresia.

O menino, muito bem instalado no seu posto de observação, ou no seu mundinho investigativo, atento, analítico, apesar da idade mínima, estudava, com o irmão mais velho, à luz do farol à querosene, entre quatro e sete da manhã. Daí em diante, uma grande algazarra se instalava em casa, posto que os menores haviam acordado, o que o fazia ir para a biblioteca do colégio das freiras, onde leu mais de cem livros em oito anos. Havia a prática de algum esporte e, acima de tudo, o descortinar de uma realidade vívida e pulsante, de toda uma cidade, bem ali na frente do seu observatório, de onde percebia e anotava tudo, mentalmente e com cuidado meticuloso.

As crianças das proximidades eram muito interessantes. O menino anotador perscrutava aquelas brincadeiras e manias inocentes dos pequenos burguesinhos bacanas, mas não tão mimados, com raras exceções. As suas histórias giravam em torno do lírico, do épico, do dramático e do trágico. Deus meu!

A mãe exercia as atividades domésticas, mas era, ainda, costureira de bom nível, ou modista, como se dizia na época.

Um dia, às onze de uma manhã de verão, a modista ultimava os detalhes de um vestido encomendado por dama bela senhorinha. Para a sua surpresa, apesar do planejamento minucioso, deu pela falta de um dos complementos, talvez um fitilho, talvez uma renda, ou um viés, ou umacianinha.Como a cliente morava ali bem próximo, ela resolveu ir à casa da mesma, pois não seria justo esperar que aquela viesse buscar o vestido não concluído. Sem ser chamado, o menino perscrutador acompanhou a mãe naquela pequena incursão. Lá chegando, claro, ele nada falou nos seus nove ou dez anos, mas observou ocorrência muitíssimo significativa e prontamente anotada nos alfarrábios da memória fresca e prodigiosa.

Na ponta de uma grande mesa forrada com linho branco elegante, uma menininha linda, clarinha, olhos e cabelos pretos, sobrancelhas arqueadas talvez pela falta de apetite, postava-se à frente de um prato, meio contrariada, com o seu almocinho quase concluído.

De saída, a mãe do menino, então, recorrendo à cena, exclamou:

- Preste bem atenção e copie o exemplo. Ela almoçou bem direitinho, educadamente, e não sujou sequer as beiras do prato. Ô menininha educada. Dá gosto.

Ao que o menino observador, respeitosamente, respondeu:

- É mãe. Prestei atenção foi que, se essa bela garotinha comesse três conchas das grandes de feijão e seis de arroz, e mais a carne e mais a verdura, quero ver se ela não melaria as beiradas do prato. Deixa está!

Pois bem. Um belo dia, eis que chegaram à pequena e pacata cidade dois meninos vindos da capital. Os pais deles haviam falecido numa época em que a meningite assolou aquela terra benfazeja. Então, uma tia, esposa do barbeiro mais alinhado da cidadezinha, apiedou-se da situação e levou os dois para a sua casa.

Eram bem educadinhos, segundo as conveniências dos inteligentes que perdem os pais e o lar. O mais velho foi imediatamente destaque na quadra e no campo de futebol. Era muito bom na pelota, como se dizia antigamente, e um zero à esquerda na escola. Apesar dos catorze anos, trocava as bolas gerais na hora de fazer as tarefas escolares mais simples possíveis. Mas era trabalhador. Tratava peixe e galinha como poucos. E era desenrolado na cozinha.

Enquanto isso, o mais novo, aí pelos oito de idade, era mais esperto que camaleão na ratoeira. Negrinho retinto, azulado, magro, espevitado, sorriso largo em dentes muito brancos, olhos amendoados, cabelos lisos e pretos, usava umas botinhas de couro com as quais até jogava bola, ou ia à escola, à matinê e à missa. Carregava o pomposo nome de Marcos Vinícius, mas a plebe ignara passou a chamá-lo deBreu,simplesmente.

Os vizinhos da frente logo gostaram daquele mulatinho falante e educado. É que eles também tinham, em casa, um outro moreninho serelepe, da mesma idade, que faziamizurase reinações pela cidade afora.

Foi aí que, numa tarde de Domingo, o irmão mais velho deste último, dado às leituras intensas, houve por bem dizer que oBreulia muito melhor e mais rápido que o seu irmão.

Daí então foi feita uma aposta e dois gibis foram tirados de cima do guarda-roupa inalcançável. O título da primeira historinha eraOs robôs monstros. A segunda historinha era intituladaTio Patinhas vai à forra.O irmão danado gaguejou, mas leu o título do texto ambientado em Patópolis. Daí, foi a vez doBreu,que não cabia em si de vontade de se ter enquanto leitor mais rápido que o outro. A pressa foi tanta que ele tascou: OS ROUBOS MONSTRÓS.

Dessa muitos ainda lembram.

O menino atento ficava sentado a uma cadeira de balanço, à tardinha, lendo alguma coisa, enquanto chegava a hora da janta que, em muitas das vezes, era composta por paçoca de jabá, baião de dois e chá de capim santo. Coisa de cearenses. Dos deuses.

Na frente da casa, morava uma família de muitas posses, quatro moças belas e cinco rapazes fortinhos e muitíssimo amistosos. O penúltimo, em idade semelhante à do menino observador, comprava os gibis, não lia nenhum, passava todos, novinhos em folha, o anotador se aproveitava das circunstâncias favoráveis e, inclusive, até pedia que lhe fossem comprados livrinhos de palavras cruzadas, coisa desconhecida pelo amigo bacana.

Um dia, talvez nas férias de julho, aos doze de idade, mais ou menos, o menino fortinho chamou o observador para uma brincadeira da manja, só os dois, pela rua afora.

Era muito fácil. O magro saía correndo, fazendo voltas, e o gordo saía atrás bufando de cansaço. Quando este ia quase tocando o outro, vinha uma rápida esquiva e a brincadeira continuava, talvez, com o intuito de fazer o amigo emagrecer um pouco.

Numa dessas ocasiões, então, uma senhora também fortinha, às cinco e pouco da tarde, havia colocado cadeiras na calçada para que, com a filha, desfrutasse o frescor da tardinha. Foi naquele exato momento em que as duas, talvez, tivessem ido beber água.

Vinham os dois correndo um atrás do outro. Vendo a situação favorável a uma pequena sacanagem, o magro, à frente, claro, de passagem, conseguiu puxar as duas cadeiras vazias atrás de si. O gordinho, já sem fôlego e sem freio, seestabacouna calçada, ele e as tais cadeiras; esta, uma ocorrência perigosa, posto que algo de muito pior poderia ter acontecido.

O amigo gordinho, todo ralado da calçada áspera, levantou da queda cuspindo brasa:

- Um dia eu te pego,féla-da-puta!

Estas são histórias de um arquivo memorial muito precioso aos índiosxapuris. Benza-nos Deus!

(**) Escritor. Autor do romanceO INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. -

BR: 364: olhar adiante para nunca mais esquecermos de cuidar do presente

Por Edinei Muniz (**)

EdineiA leitura dos documentos do TCU, e outros, revelam a natureza óbvia da tragédia: construíram a BR-364 ao arrepio ( e que arrepio) da lei e da boa técnica. Um escárnio, denunciado ao vivo, em tempo real, mas sem efeito e sem ressonância, também em tempo real, no tocante ao controle das irregularidades apresentadas ao longo do desastrado período de execução. Reflexo da incapacidade do Acrede monitorar o presente, seja por intermédio das instituições de controle, seja pelo próprio povo, que é a maior das suas instituições.

Do ponto de vista técnico, em especial, no tocante à engenharia, fizeram tudo, como se diz no popular, na "tora", no jeitinho, na marra, na gambiarra, como se estivessem construindo um ramalzinho qualquer. Coisas que só a certeza da impunidade e a loucura sem freio pelo poder a qualquer custo poderiam produzir. Ignoraram o TCU, PF, MPF e princípios elementares da engenharia.

O que vivemos, talvez seja muito mais um escândalo relacionado a descasos técnicos (e de fiscalização e acompanhamento) do que corrupção propriamente, apesar de existirem, óbvio, centenas de indícios apontando nessa direção. Ou talvez, o que seria impagável, tudo tenha ocorrido de caso pensado, uma coisa puxando a outra. Prefiro não acusar.

É fato que as empresas faziam o que bem queriam e do jeito que queriam. Claro, à vontade, qualquer empreiteira escolherá o caminho mais curto entre lucros e custos. Afinal, é do que vivem.

É duro reconhecer, mas esse leite, tudo indica, já está derramado e a única Justiça que parece ser possível é mesmo vigiar o futuro para que não estejamos repetindo, pelo menos no mesmo nível, os erros do passado.

O DNIT, que carrega nas costas uma culpa talvez até maior que a do Deracre, anda dizendo que irá iniciar a recuperação. Que venha. Mas que venha agora com seriedade, probidade e zelo. Será fiscalizado com o rigor e com a responsabilidade de quem assume o compromisso de mudar essa sequência de desmandos.

E o que faremos com o passado, diante da demanda reprimida por JUSTIÇA? Aprenderemos com ele e tentaremos responsabilizar e punir o que ainda for possível. Olhar para o futuro sem compromisso com os erros do passado é a melhor forma de fazer justiça ao tempo presente que vivemos. Nas urnas, responderemos.

Como disse Juscelino Kubitschek ao idealizar a BR, precisamos de homens de coragem para construí-la. Ao povo, só resta agora escolher bem esses novos homens.

Sigamos...

(**) Edinei Muniz é advogado

A IRRESPONSABILIDADE COM O PAÍS

Por Léo de Brito (**)

leo britooDe todas as declarações que vieram à tona com as gravações da JBS, a que mais chamou a atenção foi a do senador afastado Aécio Neves. Em uma das

interceptações, o senador disse que o PSDB entrou com ações contra o PT no

TSE ‘‘só para encher o saco’’. Por essa declaração, o neto de Tancredo já

pode ser considerado o maior mau perdedor de eleições da história brasileira.

Se antes Aécio era conhecido nos bastidores da política pelos seus métodos

de conciliação e pela pose de estadista, depois das eleições de 2014, o

mineirinho vestiu a carapuça de um falso radical moralista, em defesa das

‘‘pessoas de bem desse país’’. Hipocrisia pura.

Hoje, mesmo com a frieza de quem analisa o passado recente, ainda é

possível se impressionar com as consequências da ação irresponsável que

culminou com o impechment de Dilma Roussef: recessão histórica,

desemprego recorde, desmonte do estado brasileiro, ataque aos direitos dos

trabalhadores e uma crise institucional sem precedentes.

Aécio agiu como alguém que queimou o circo, mas este caiu sobre sua cabeça.

É óbvio que quem faz isso se acha intocável. Mas o mundo dá voltas e hoje o

senador está afastado de seu mandato e na iminência de ser preso. Mesmo

destino dos também comandantes do golpe, Eduardo Cunha e Michel Temer.

Cunha, aliás, já foi condenado a 15 anos de prisão, depois de perder seu

mandato de deputado federal. Temer, pego com a boca na botija, deverá sair

do cargo e responder pelos crimes cometidos. Hoje, está cada vez mais claro

que a saída Temer era, de fato, para ‘’estancar a sangria’’. Eis a maldição do

golpe.

O destino de Aécio parecia estar selado. Investigado em 5 inquéritos no STF e

com uma enorme lista de escândalos em sua biografia, tais como: Furnas, Lista

da Odebrecht, Aeroporto de Cláudio, propinas da Petrobras. Com tantos

escândalos, Aécio foi flagrado pedindo R$ 2 milhões em propina da JBS para,

pasmem, defender-se das acusações de corrupção! E sua imagem derreteu. O

tucano volta agora para o limbo da história política como o sujeito corrupto que

quase chegou à presidência da república.

Em sua denúncia, Janot foi categórico: Aécio ludibriou os brasileiros. Diga-se

de passagem, hoje é difícil encontrar alguém que afirme ter votado nele para

presidente.

E segue a nossa política, dominada por interesses mesquinhos, e que permite

que um país com o potencial gigante como o Brasil se transforme numa

república bananeira. Só porque alguém quer encher o saco.

  • (**) Léo de Brito é deputado federal pelo PMDB-AC

A fênix renascida do caos mais íntimo

Por CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (**)

Para a Geany Silva.

Bela3Viera de uma terra distante. Indagara ao vento sobre que tipo de pessoas poderiam fazer parte do seu novo mundo em início de construção. Os edifícios eram tão belos e tão altos que lhe batia uma espécie de vertigem, ou sonolência, ou uma doida vontade de nada ou quase nada fazer. Todos agora lhe eram estranhos. Talvez as caras novas não lhe sorriam com algum afeto. Novidades crescentes. Aquela dimensão novinha e recém-nascida aos seus pés inspirava-a. Havia uma vontade enorme de sondá-la, esmiuçá-la, esquadrinha-la total, como é comum aos que ainda estão a experimentar e a palmilhar as primeiras voltas ao redor do sol. Uma menina no esplendor dos sonhos de todos os formatos.

Dela se acercou, então, um desses bem-humorados analistas da era moderna, fazendo uso ponderado da caneta e das possibilidades de cada um. Meio malabarista, meio troteador e um tanto prudente, ele passou a dar pistas, por escrito e em bom português, muito obviamente, no mais das vezes bastante claras e jamais escorregadias.

Um dia, o aqui denominadoprotetor solarousou escrever que, com algum respeito, sentia grande carinho por ela. Comportamento de quem está sempre de posse de um bom chicote de pontas de metal pronto a dilacerar as costas de quem quer que seja, a mocinha foi incisiva, abrupta mesmo, e passou a fazer divagações meio ácidas relativas aos projetos de futuro e à vida que mal começara.

Daí em diante, uma personalidade forte e afiada foi sendo revelada pela moçoila que afirmava, seguramente, gostar de pessoas frias e de difícil apego, daquelas do tipo que se vai ganhando, aos poucos, dominando territórios, conquistando a confiança. Segundo ela, gente assim acaba se tornando as melhores que você haverá de conhecer. Coisa mais bela.

- Desconfio dessa gente que ama desde o princípio. Pessoas que espirrameu te amonão chamam a minha atenção, não fazem o meu olho brilhar.

Buscando as raízes de uma conduta encantadora, pela densidade, para qualquer analista do comportamento humano, oprotetor solarfez comentário sutil:

- Talvez eu esteja vendo ou sentindo algum desencanto nas suas palavras. É provável que o seu mundo lhe tenha ensinado a ser assim, meio grave, meio aguda, meio leve, meio arredia.

Ao que ela, esboçando um estilo fino e cortante, respondeu:

- Aí. Você tem a sua opinião e eu tenho a minha ironia.

- Está fora de cogitação fazer algo para mudar a sua forma de encarar a vida e os fatos. O estilo é como roupa de dormir e tem o seu cheiro peculiar, agrade ou não. Apenas fico encantado com o que escreve. Vejo na sua pessoa um devir brilhante enquanto uma futura estudiosa do ramo das humanidades. Percebo que as pistas seguidas por você nasceram de livros ou de pessoas que lhe foram dando sugestões. Talvez os pais.

- Segundo o meu ponto de vista, qualquer um pode aconselhar o outro na escolha de um caminho na vida. Porém, é você quem decidirá se deve ou não ir atrás da pista recomendada. Até porque és a única pessoa que te conhece melhor ao se mirar no espelho, que sabe decorado todos os teus sonhos e desejos. Agora, nunca esqueça que o lápis sempre estará entre os seus dedos, para que você possa ter o devido direito de escrever ou corrigir os seus erros. Assim como as opiniões alheias sempre lhe serão recorrentes, entre uma palavra e outra, é conveniente lembrar que, dependendo do ponto de vista, quem avista o ponto final é você.

Essas ponderações altamente equilibradas e muito bem escritas passaram a deixar o analista bestificado, com as pupilas arregaladas, quase fazendo careta de tanta satisfação. Que coisa bonita de se vê são divagações como estas. Tão cheias de tato. Tão lúcidas. Tão primorosas.

Então, oprotetor solarinterveio:

- Quais pessoas foram tão interessantes na sua vida ao ponto de lhe deixarem tão equilibradamente analítica em termos de perseverança?

- Ora, pois. Ultimamente, tenho conhecido tanta gente que eu percebi que não conheço quase ninguém, que ninguém me conhece, que ninguém se conhece, ninguém quer se conhecer. E talvez isto não tenha ocorrido apenas ultimamente.

É verdade. Todos ou quase todos estão meio sem rumo. Como diria o poeta,com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.

- Com a alma configurada em formatação tão intensa, como a sua, acredito que pessoas inteligentes se acerquem do seu mundo. Penso em sugerir pretendentes que gostariam de compartilhar os seus encantos e desencantos.

- Sem pretendentes e sem desencantos.Porém, tenho percebido que o ruim de ficar tanto tempo solteira é que você vê muita coisa que não devia. Talvez todas as moças da minha idade devessem ver, não sei. E, assim, eu passo a acreditar cada vez menos nos relacionamentos, na lealdade, na confiança. Dá até vontade de ficar sem namorado, ou o que quer que seja, para sempre, para não ter que passar por tudo aquilo que você já conhece de trás para frente. É deveras complicado ter alguém que faz falta todo dia, ter alguém que também traz decepção de sobra. Vejo diariamente os caras comprometidos perdendo a linha por aí. Colocando a namorada no bolso, sem o mínimo respeito ou consideração, pegando amiga, prima, mãe e depois se declarando inocente nas redes sociais. Sinto náuseas. Definitivamente, não é isso o que eu quero para mim. Não estou generalizando. Estou me referindo ao que mais vejo por esta vida afora. Tenho lamentado profundamente a morte gradativa da minha esperança no amor e nas coisas bonitas.

- Escreva-me sobre exemplos práticos seus, fatos do dia a dia.

- Esses dias, uma amiga ficou pela milésima vez com um garoto que namora. Eles têm algo tipo umrolo, mas o cara égalinha profissional. Só que, nas redes sociais, ele é encantadoramente apaixonado, uma figura clássica.

E ela prosseguiu:

- Mais tarde, eu estava ficando com um garoto qualquer e ele recebeu uma mensagem de alguém que dizia lhe ter muito amor e que “mesmo você não acreditando, espero o dia em que ficaremos juntos para valer." Ele leu, bloqueou a tela, guardou o celular e me beijou sem esboçar reação alguma. Deu em mim um alívio enorme em estar ali por estar. E eu não consigo parar de pensar na história por trás daquela mensagem. Em como aquela menina estaria se sentindo naquele momento, no quanto ela devia ter relutado para escrever aquilo para, enfim, se render num átimo de esperança, em mais uma tentativa de fazer dar certo aquilo que já nasceu torto.

Os fatos aqui narrados ocorreram nos anos posteriores à guerra fria. A menina e moça nascera nos arredores de Southampton e transferira-se para Birmingham, com a finalidade de adquirir mais conhecimentos para a vida futura. Ela estava, naquele dia mesmo, concluindo um curso de pós-graduação em psicanálise. Logo mais, ao redor da última hora, em cerimônia na Academia, receberia a clara demonstração do quanto os seus estudos foram importantes para muitos humanos desencantados com o mundo ao redor. Ela estava felicíssima.

Daquela noite em diante, pois, pássaros azuis passaram a povoar os seus sonhos e divagações relativas ao futuro. O passaporte para a felicidade passou a ter carimbo novo e legítimo. Voaram para muito além da última galáxia os pensamentos tristes e a bela voltou a achar muita graça da vida, como agora mesmo está sorrindo de todos os monstros por ela criados em um passado não tão remoto, mas há alguns meses ou anos ainda com cheiro de novos.

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(**) Escritor. Autor do romanceO INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou na página https://www.facebook.com/claudiomotta.com.br/

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