• Facebook DiretoDoPlanalto
  • Twitter DiretoDoPlanalto
  • GooglePlus

Estágio avançado em Vila de Chaminés

CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO (**)

Bela5Observado, ao longe, enquanto uma espécie de gato de botas fora de época, ele chegou a pensar que os acontecimentos mais recentes pareciam aquele momento em que uma empreitada tem continuidade sem que o seu início tenha sido dado por quem viveu a experiência desde o princípio. Mas a vida é assim. O nosso guia turístico é de Altíssimo nível, o roteiro está criteriosamente detalhado e cabe-nos, então, aproveitar a viagem que, a depender apenas do próprio passageiro, deverá ser uma maravilha. Mas não se embriague tanto.Abestalhamentosnão são permitidos. Também não se finja de morto. Beba apenas o suficiente para umas boas gargalhadas. Olhe através da janela e veja como as providências foram tomadas de forma a garantir o seu bem-estar por esta vida afora.

Até então, vivera desde sempre em uma cidadezinha interiorana de costumes bem simples, às vezes. O grande sonho de todos do lugar era, um dia, quem sabe, ir morar na capital da província, com o fito de não apenas ter filhos gordos, mas em busca de uma formação em níveis superiores.

Com a ajuda dos pais e de um irmão, enfim, ele conseguiu e todos, juntos, fizeram a tão sonhada mudança. O futuro da família estava em jogo, e não era jogo de peteca.

A chegada ao paraíso dos sonhos mais reais aconteceu num desses dias cinzentos e nada festivos imediatamente após o carnaval. Um ônibus em estado deplorável. Uma viagem escorregadia. Uma estação de passageiros tosca. Um bairro bastante simpático. Pessoas na calçada. Moçoilas bem interessantes. A vivenda desajeitada.  Um novo e diferente mundinho. Descortinava-se, desta forma, o palco das experiências mais bem sucedidas. A grande festa estava apenas começando.

Nascera um observador atento a todos os ruídos. Nada, no entanto, causava nele assombro maior. Tudo era novidade. Os costumes da maioria não faziam constar grande amor pela escola, e muito menos qualquer obrigação para com as tarefas escolares, por exemplo. Pouquíssimos sabiam o que significava fazer um curso superior. E tudo era devidamente tomado nota pelo observador das experiências vitais.

Os botecos da vila não tinham nenhum luxo, mas lá havia muito aconchego, boa conversa, som de clarinete e batuque do bom. A cerveja era anotada em bom papel almaço por uma tia muito querida, dona do estabelecimento congênere. Mãos talentosas, dela, preparavam acepipes maravilhosos feitos a partir da carne bife com bastante cebola.

Bem no estilovamos ao que interessa,os finais de semana eram algo entre a inocência e o pecado. Uma gostosa loucura, intensa, feito calor, se alastrava por quase todos os lares, principalmente, depois que foi erguido um barracão em homenagem ao samba. A bebida era farta, como também eram fartas as taiscigarrilhas do demônio.Uma rapaziada numerosa se aprazia com asviagense os odores promovidos pela porra damarijuana.Sim, também algumas moças faziam usufruto dessa coisa maluca e mal cheirosa. E, como na letra da música do Chico, todos por ali estavam apenas esperando o carnaval chegar.

O nossosherlock holmesmatuto das terras seringueiras observava e, um dia, experimentou engolir a fumaça, mas detestou, principalmente, porque as chaminés humanas roubavam o aroma dos bons perfumes comprados a preços exorbitantes para as saídas diurnas e noturnas.

Lá estava o grupo amoitado na fazenda rente à vila. Havia um mestre, um contra mestre, um prático, um marujo, um vigia, este, grande jogador de sinuca, e o moço observador, que era estreante naquela pendenga às escusas da segurança nacional.

Estreou pessimamente e foi cortado da comandita por absoluta falta de competência na arte de fumar maconha. Ele não aprendera a puxar a porcaria da fumaça e, depois, não conseguia andar direito devido a uma grande vontade de dar cambalhotas no meio da rua de moradores e viventes que hoje tanto o admiram por um bocado de boas qualidades.

O primeiro Carnaval foi algo meio doido mesmo. De repente, no sábado, ainda cedo da tarde, ele já estava a ingerir, com força, uma talporradinha.Um calor dos infernos. A mocidade carnavalesca colocava uma dose de vodca em um copo grande, ao que era sobreposta soda limonada. Rapidamente, com uma pancadinha com o vaso na coxa, a mistura espumava abundantemente e a bebida era jogada goela adentro. Os efeitos eram estupendos, inebriantes, malucos mesmo... Dos cacetes.

E o numeroso cordão de foliões saía pela rua afora dando vivas à felicidade relativa do Carnaval. O anotador seguia no meio, bêbado, é claro. O destino era a praça central da cidade, onde muita música e desfiles aguardavam a mocidade de então. Uma beleza.

No meio do cordão de carnavalescos, pois, um cordão  -  de ouro  -  foi arrastado do pescoço de alguém. E foi uma gritaria no meio do povaréu. A autora da ação se evadiu da festa e dela as notícias só vieram na quarta de cinzas. Vendera a joia e ainda estava muito doida tomando banho num riacho das adjacências.

Quando ele, enfim, saiu da vila, estava rumo a um curso de altíssimo nível em escola superior de renome nacional. Fez um outro ainda mais elevado, o ápice.

Da pequena cidade de origem, trouxe régua e compasso, como disse o Gil. Mas foi emvila de chaminésque ele aprendeu a desenhar, a festejar, a namorar, a ser cavalheiro feliz e a voar muito alto... E nunca mais ninguém dele teve notícia.

Tudo foi, realmente, um grande e necessário estágio.

__________

(**) Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. -

COMENTÁRIOS

Informamos aos nossos leitores que o Portal Direto do Planalto não se responsabiliza pelas consequências jurídicas sobre as opiniões divulgadas nos campos de comentários, e que as postagens de conteúdo ofensivas serão excluídas do portal.

DIRETO DO PLANALTO
WWW.DIRETODOPLANALTO.COM


Direto do Planalto é uma publicação de MMPL Consultoria, Marketing e Divulgação
Diretor Responsável - Mariano Maciel (Reg. Prof. 005/DRT-AC)
Artigos e matérias assinados são de responsabilidade de seus autores
Fale conosco: (diretodoplanalto2015@gmail.com)

Permitida a reprodução com citação da fonte. © 2014 - 2016  Direto Do Planalto.